Um enfezado. Um enfezado com pernas de canivete, óculos de massa grossa e um cabelo que não lembrava ao diabo. Depois cresci e, aos poucos, fui matando aquele miúdo inseguro dos tempos do secundário. Ganhei uma nova confiança, que fui alimentando nos meus anos de faculdade. Sei que vivia a 20km de Lisboa mas só com a ida para a universidade comecei a abrir os meus horizontes e, mais importante, a minha mente. O miúdo, que pensava estar cheio de defeitos, começou a aprender a valorizar-se, mentalmente e fisicamente. Assimilou muletas de linguagem, de conversa fiada, e a ler os comportamentos de quem o rodeava. Tudo não passa de causa-efeito, de guiões sociais que por muito que gostássemos de improvisar, a realidade é que a maioria das cenas já estão escritas. E a maioria dos actores sofre das mesmas inseguranças.
O miúdo, que ainda hoje não é nada de especial, aprendeu a namoriscar. E a verdade é que até era bem sucedido na arte do bem vender-se. Recebia uma atenção a que não estava habituado. Elogios que canalizava directamente para o ego. Um fluxo que mantinha alimentado, sempre com a existência de dois ou três pretendentes.
Hoje a história é bem diferente. Já não procuro a validação de terceiros de uma forma tão sedenta. Embora ainda aceite e goste dos elogios - quem não gosta? - não tenho qualquer pretendente e nem cultivo a possibilidade de arranjar um. E já é assim há dois anos. Inevitavelmente, com o meu namoro, fui fazendo o desmame e afastando quem pouco ou nada me interessava. Hoje em dia, a única validação que realmente procuro e preciso é do meu namorado. E não será a única que realmente interessa?